Individual
Maria Edilse Vieira
Dados Pessoais
Descrição
Guardiã da Memória e Expressão Viva do SemiáridoMaria Edilse Vieira, amplamente conhecida por sua comunidade como Maria Alice, é uma proeminente artista e agente cultural do semiárido cearense. Residente no Sítio Umburanas, localizado no Distrito de Forquilha, município de Beberibe, Ceará, ela traz consigo uma trajetória de quase sete décadas dedicada à salvaguarda, difusão e fortalecimento da cultura popular brasileira.
Origens e a Tradição dos Dramas Populares
A história de Maria Alice com a arte começou na infância, impulsionada por uma dinâmica familiar e comunitária singular. Em uma época em que o acesso a escolas públicas era escasso na região, seu pai, o sanfoneiro Luís Nunes Vieira, contratou o professor particular Zacarias Simões para alfabetizar e ensinar matemática aos seus filhos. Como rito de encerramento do ano letivo e momento de entrega das avaliações finais, o professor organizava encenações de dramas nos quintais das residências.
Foi nesse cenário, entre as comunidades de Encruzilhada e Umburanas, que os professores Zacarias Simões e Raimundinha Sena semearam a união das dramistas locais. Com apenas 9 anos de idade, Dona Alice teve sua primeira experiência cênica. A iniciativa prosperou e, em setembro de 1957, o novo grupo realizou sua primeira apresentação oficial. A tradição se consolidou e o coletivo passou a ser convidado para se apresentar em diversas localidades da região, como Preá (em Aracati), Umburanas e Encruzilhada (em Beberibe).
Historicamente, entre as décadas de 1930 e 1980, os dramas populares serviram como um rito de passagem para as adolescentes em grande parte do Ceará. Naquela primeira formação, figuravam nomes como:
Dramistas: Terezinha Lima dos Santos, Maria Alice Vieira, Maria Umbelina Vieira, Maria Angelita Vieira, Maria Lima Vieira, Beatriz Ribeiro, Maria Lima Filha, Maria do Carmo dos Santos e Joaquina (Quinquim).
Músicos (Tocadores): Liberato Lima Vieira, Luís Lino, Luís Nunes Vieira Filho e o patriarca Luís Nunes Vieira.
Maria Alice casou-se com Geraldo Lima Vieira, com quem teve 12 filhos (dos quais 6 estão vivos). Ao longo dos anos, manteve o movimento dos dramas vivo ao lado de seus irmãos e de sua prima, Terezinha Lima dos Santos.
O Resgate e a Evolução do Coletivo
Após um período de retração da prática, o movimento cultural ganhou um novo fôlego em 1995, com a fundação da Associação da Comunidade de Umburanas e Encruzilhada. Com o objetivo de resgatar os costumes tradicionais, a associação promoveu uma grande Noite Cultural, cuja atração principal foram os Dramas Populares. Sob a direção de Evandro Lima Vieira e Dona Mariquinha, o elenco reuniu a Mestra Tereza Lino, Maria Umbelina, Maria Alice, Beatriz Ribeiro, Maria Josélia, Elis Ângela, Clediana Duarte, Jeane Sousa, Geavam, Liberato Vieira, Luís Nunes Vieira e Zélio Lima Vieira. Este evento foi o divisor de águas que reestimulou os fazedores de cultura a retomarem seus saberes cotidianos.
Em 2006, com a integração de novos protagonistas e o início de uma fase mais abrangente, o coletivo foi batizado como Grupo de Dramas Populares do Litoral Leste. Atualmente, o grupo mantém-se ativo por meio da fusão com dramistas de Aroeiras, de Pau Branco e com a participação direta de alunos da Casa das Dramistas.
Atuação Contemporânea e Reconhecimento
Hoje, aos 79 anos de idade, Dona Alice permanece ativa, atendendo a convites para eventos, festivais e projetos de relevância nacional. Sua atuação estende-se como membro fundamental do coletivo Ponto de Referência Cultural Casa das Dramistas Cultura Viva, instituição certificada pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult Ceará) e pelo Ministério da Cultura (MinC).
Sua assinatura artística se destaca pela versatilidade, interligando:
Teatro Popular e Dança: A preservação das narrativas dos dramas e a ancestralidade da dança Manzurca.
Artesanato: Confecção de peças manuais com tecidos e retalhos.
Cultura Alimentar Tradicional: A salvaguarda da culinária regional, expressa na produção de iguarias como galinha cheia, sarapatel, grude, pé de moleque, pamonha, tapioca e a icônica "Buchada da Família Vieira".
Por esse notável conjunto de saberes, em 2024 recebeu da Secretaria de Turismo e Cultura de Fortim, em conjunto com a Casa das Dramistas, o título honorífico de Guardiã da Memória.
Projetos Recentes e Audiovisual
A potência de sua produção foi chancelada em editais públicos da Lei Paulo Gustavo, através dos quais viabilizou os projetos "Dançando Manzurca no Semiárido de Beberibe" e o documentário "A Buchada com Arroz da Família Vieira". Por meio dessas iniciativas, realiza oficinas em escolas públicas e comunidades periféricas, promovendo a transmissão intergeracional de saberes e utilizando a arte como ferramenta de fortalecimento da saúde mental e da identidade cultural.
Sua relevância também se faz notar no cenário audiovisual. Maria Alice integra o elenco do documentário "Raízes do Ceará – Mãos da Terra", obra finalista em um festival internacional de cinema em Portugal. Além disso, conta com participações no programa No Batente (do Instituto Dragão do Mar) e no Projeto Rab Cultural, gravado em 2025 e lançado em janeiro de 2026.
Vídeos
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